31.05.2008 | Música | Ao Vivo
Se ela continuar a dizer No No No à Rehab, não haverá penteado que a salve
No primeiro dia de Rock in Rio Lisboa 2008, Amy Winehouse foi mais atracção de circo que outra coisa. Tudo à espera de vê-la cair e ela caiu. Tudo a imaginá-la bêbada e ela bebeu. Os que estavam lá para a ver cantar levaram pouco, muito pouco, para casa.
Rock in Rio, Parque da Bela Vista, Lisboa, 30 de Maio de 2008
As meninas rebeldes e mal
comportadas decidiram fazer escala em Portugal. Primeiro Cat Power, já com
idade de senhora (36) mas com curvas e trejeitos de menina; agora Amy Winehouse.
Delas, já se sabe, espera-se tudo: um concerto sublime ou barrete dos grandes.
E se a norte-americana não deu por mal empregues as noites nos coliseus de
Lisboa e Porto, a britânica mais mediática do momento deixou desconsoladas
muitas das 90 mil almas que ontem rumaram ao Parque da Bela Vista para o
primeiro dia de Rock in Rio.
Felizmente houve, para os
apreciadores, Ivete Sangalo antes e Lenny Kravitz depois. Não fora isso e,
adivinha-se, a gente teria pedido de volta o dinheiro do bilhete. Ou não. E
este ou não inscreve-se na categoria da sociedade voyeurista que aí anda –
sobre isto, ler o que Vitor Belanciano escreveu, e bem, na edição de
sexta-feira do Público. Seja como for, por esta hora a famosa queda de miss Winehouse no palco lisboeta deve estar mais que bem documentada no YouTube e
outros que tais.
Para os que iam rindo
enquanto lançavam frases como Ei, ela está mesmo toda fo****, o concerto de Amy
terá correspondido na integra às expectativas. Esperavam vê-la com álcool pelas
barbas e viram, contavam com episódios rocambolescos e ela não os desapontou:
esqueceu-se da letra das canções, não conseguiu articular palavras, travou luta
titânica com o microfone, esse danado que não queria encaixar-se no tripé, e
até deu para uma semi-queda. Chorou.
Se ela não tivesse uma banda…
Da cantoria há pouco a dizer
porque, convenhamos, Amy pouco cantou. Meia hora e muitos assobios depois, de
copo na mão, a mais controversa figura da pop actual abriu o concerto com
Addicted. E só à terceira, Back to Black, Winehouse conseguiu fazer-nos lembrar
por que é que aquele povo estava todo ali para vê-la. A banda, essa, lá ia
tendo paciência. E o coro, o impecável coro que a acompanha, não deu para
salvar a face mas amainou o marasmo.
Seguiram-se tentativas de
interacção com o público, muito balbuciadas, até que em Love is a losing game a
cantora começa a chorar. Blake, o marido, sempre ele. Na cabeça, nas letras das
músicas, no que dizia ou tentava dizer à plateia, no coração que trazia armado
no cabelo.
Veio You know I'm no good you know I'm no good e antes daquela por que todos esperavam, Rehab, Amy fez nota
de culpa. «Perdoem-me por estar com uma voz péssima. Estou com a voz toda
lixada por isso vou tocar guitarra.» Não tocou.
E assim,
ao fim de menos de uma hora de espectáculo, com alinhamento incumprido, fraca
qualidade e alguma comoção, Amy fechou com Valerie, faixa que fez para o álbum
Version, de Mark Ronson. Disse que queria muito estar no Rock in Rio Lisboa e
que por isso veio. Mesmo de pulso ligado, mesmo sem voz, mesmo muito
alcoolizada. Pediu desculpa aos que pagaram para a ver. Deu a entender que
deveria ter cancelado. Não sabemos se saiu perdoada. O que sabemos é que, a uma Winehouse assim, há
muito quem diga No No No.
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