09.10.2008 | Literatura | Lançamento
Herberto Helder põe fim a década e meia de espera com publicação de poemas inéditos
Fez saber em 1994 que não receberia o Prémio Pessoa. E nunca mais publicou um livro de inéditos. Mas eis que, aos 77 anos do poeta, chegou o tempo de A Faca Não Corta o Fogo – súmula & inédita, que a Assírio & Alvim faz hoje chegar às livrarias.
Se de Saramago e de Lobo Antunes estamos habituados a ler
inéditos com regularidade, de outros nomes de igual relevância na literatura
portuguesa nem tanto. Caso de Herberto Helder, que hoje vê publicado A Faca Não Corta o Fogo – súmula &
inédita, pela Assírio & Alvim, 14 anos depois de Do Mundo e de ter recusado o Prémio Pessoa.
Essa faceta heterodoxa do poeta – alheado por completo da
vida mediática, não recebendo prémios, não concedendo entrevistas desde 1968 – é
bem conhecida e, de algum modo, até contraproducente para a divulgação da sua
obra. Embora não tenha o facto impedido o Pen Clube de o indicar, em 2007, para
o Nobel da Literatura.
Herbert Helder começou a publicar em 1958, poesia, com O Amor em Visita. E é pouco depois, em
1963, que ganha a notoriedade imensa de que ainda vem gozando, com a publicação
de Os Passos em Volta, prosa poética.
Dez anos depois, em 1973, começa um dos processos antológicos mais
interessantes da literatura portuguesa, com Poesia
Toda, que republicará em volumes sequencialmente mais magros.
Agora, chegou o tempo de «um novo volume de poesia, com todo
o rigor e beleza a que nos habituou», lê-se no blogue da editora. Não pensando
se Herberto é ou não o maior poeta português depois de Pessoa, como muitos
defendem, o lançamento de A Faca Não
Corta o Fogo – súmula & inédita «é, não tenham dúvidas, um dos maiores
acontecimentos editoriais do ano», frisa José Mário Silva, justificando a
sentença, no seu Bibliotecário de Babel,
com três dos poemas inéditos do livro.
Como se intui do título, o livro compreende duas partes –
uma onde reencontraremos poemas antigos; outra em que reconheceremos as
esperadas novidades assinadas pelo autor de Última
Ciência.
A capa de A Faca Não
Corta o Fogo – súmula & inédita é de Ilda David, que assina ainda a
capa e demais ilustrações na nova peça de ficção de Maria Velho da Costa – Myra. Ilda David é um nome recorrente
nas edições da Assírio, tendo mesmo dois títulos publicados em nome próprio na
colecção Arte e Produção.
Entre homens, uma Maria das grandes
A estreia de Maria Velho da Costa no catálogo da Assírio é outro dos
acontecimentos marcantes na rentrée literária em Portugal. A publicar ainda
este mês na colecção A Phala, o novo
romance, Myra, dista seis anos da
consagração com o Prémio Camões, em 2002, e mais de 35 sobre a polémica
publicação de Novas Cartas Portuguesas (1972), em co-autoria com Maria
Teresa Horta e Maria Isabel Barreno – as 3
Marias.
De
Etty Hillesum, a Assírio reedita Diário
1941–1943, na colecção Teofanias,
com tradução do neerlandês de Maria Leonor Raven-Gomes. As 352 páginas do
volume correspondem aos oito cadernos de papel quadriculado que a escritora,
judia, compôs durante a Segunda Guerra Mundial, até perecer em Auschwitz. O
relato apenas seria publicado em 1981 e traduzido para inglês em 1983.
As edições para 2009 do Poemário, do Diário e do Culinário –
sendo este último dedicado ao gastrónomo Alfredo Saramago, recentemente
desaparecido (1938-2008) – são, também hoje, disponibilizados nas livrarias.
Ler entrevista de Herberto Helder concedida a Fernando
Ribeiro de Mello, em 1964, publicada no Jornal
de Letras e Artes
| Hugo Torres |
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