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 27.02.2009 | Cinema | Especial Fantasporto

«Fantasporto é o único evento fora de Lisboa com impacto nacional»

 

Mário Dorminsky ameaçou o fim do Cinema Fantástico no Porto no arranque de mais esta edição do festival. Em entrevista ao RASCUNHO/JUP, o director do Fantas não poupa as políticas culturais, os festivais da capital e até o umbiguismo do cinema português.

 

A três dias de devolver o Rivoli à normalidade e numa altura em que já nos preparamos para conhecer os vencedores da 29ª edição do Fantasporto, o RASCUNHO/JUP – que tem acompanhado diariamente o Festival de Cinema Fantástico do Porto, através de um blogue especial – publica esta extensa conversa com Mário Dorminsky. Falámos com a mais reconhecida das caras da direcção do festival com o certame a meio, quando as respostas ainda estão na pele. Fotografias de Manuel Ribeiro e edição de Hugo Torres

 

Para o ano o Fantasporto faz 30 anos. Afirmou há dias que a próxima edição pode estar em risco – porquê?

Sim, pode. É a edição 30, como podia ter sido a edição 21, a 22 ou a 14. Todos os anos, no meio cultural, sentimos um problema extremamente complicado, que é saber a capacidade financeira que possa existir pela parte quer do Estado e das autarquias, quer, sobretudo, dos privados. É preciso não esquecer que o Fantasporto talvez seja exemplo único em Portugal, ao ter cerca de 80 por cento de apoio dos privados e apenas 20 por cento de apoio das entidades públicas.

 

Essa percentagem incomoda-o?

Incomoda. O Estado devia ser responsável pela existência de projectos culturais considerados de interesse e, no caso do Fantasporto, isso é um facto. Ainda agora, o Instituto do Turismo nos atribui o Prémio Nacional do Turismo pela imagem internacional do festival e pela imagem que levamos de Portugal para o estrangeiro. Somos considerados um dos 25 melhores festivais do mundo, pela Variety, como somos considerados o melhor festival de cinema fantástico da Europa, a par do festival de Sietges perto de Barcelona. Outro aspecto que me parece muito importante é o facto de o Fantasporto estar a Norte. Como temos tido governos muito centralizadores, Lisboa e o Vale do Tejo são o centro do país, o resto é província.

 

Era exactamente aonde ia chegar mais à frente. Há uns anos considerava que existia um bloqueio de subsídios ao cinema do Norte…

Não é ao cinema no Norte. É a tudo, desde a vida política até à impossibilidade das grandes empresas se manterem a Norte e aos músicos que precisam de ir para Lisboa para conseguirem ter alguma imagem, ou mesmo para o estrangeiro para depois voltarem como nomes já marcantes da nossa vida cultural. Essa centralização obriga a que tudo vá para Lisboa. Fizemos sempre bloqueio a isso. O Fantasporto é o único evento realizado fora de Lisboa que consegue ter um impacto nacional. É muito complicado na nossa cabeça que o Estado não dê a mão. Fiz aquelas afirmações, em relação à edição 30, para que pudesse haver uma reflexão durante o festival.

 

Fantas é «inevitável» para o Porto

 

Ainda a propósito da próxima edição, o ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, veio depois dizer que o Fantasporto não estava em risco.

Como é que o ministro vai salvar o festival? Tem que aparecer uma solução até ao final de Abril. Isto porque, já em Maio, vamos fazer o lançamento dos 30 anos em Cannes, onde temos imagem muito forte junto dos produtores e dos meios do cinema. São cerca de 50 mil pessoas que, no fundo, têm tido acesso a essa imagem continuada nos últimos dez anos, numa promoção do Fantasporto, do Porto e de Portugal. Se não tivermos a certeza que aparecerá uma solução, temos que a procurar nos privados, que vão ter dificuldades, numa fase imediata, de assumir o apoio. A única garantia que temos é da autarquia, pois quer o actual presidente [Rui Rio], quer Elisa Ferreira [candidata do PS à câmara do Porto], já garantiram que o apoio ao Fantasporto é inevitável.

 

Rui Rio chegou a dizer que «há coisas mais difíceis de resolver» do que salvar o Fantasporto…

A questão que se levanta é que, não havendo decisões até Abril, temos apenas uma única verba de 130 mil euros do Estado. Precisamos de cerca de 800 mil para fazer um festival com as características do actual ou ainda de mais, se quisermos fazer um festival com mais nomes importantes do cinema internacional, que é o grande salto que o Fantasporto ainda tem que dar. Precisamos de um apoio substancial do Instituto do Turismo. Agora, tudo isto tem que ser decidido muito rapidamente, para que não aconteça o que aconteceu no ano passado, que foi grave. O Instituto do Turismo disse-nos oficiosamente que nos dava 200 mil euros e depois, já durante o festival, veio uma carta a dizer que nos atribuíam apenas 50 mil. Foi por isso que, pela primeira vez na história do Fantasporto, tivemos um saldo negativo de cerca de 140 mil euros. Não estamos cá para que hajam lucros.


 

Já este ano, estranhamente, apesar de todas as conversas que tivemos, apesar do prémio atribuído pelo Instituto do Turismo, ainda não obtivemos sequer resposta [daquela entidade]. Embora tenhamos cá, nesta edição, três nomes que nos parecem de nível A do panorama do cinema europeu, temos também um número de convidados que foi ligeiramente reduzido porque pagámos apenas a vinda aos realizadores, deixando de fora os acompanhantes e os produtores. Mas, apesar de tudo, ainda conseguimos fazer um festival com uma qualidade muito forte.

 

«Sangue invade as ruas do Porto»

 

Foi um dos fundadores do Fantasporto, em 1981, e está envolvido na sua organização desde essa altura. Estamos na 29ª edição. Como vê a evolução do festival?

O Fantasporto começou como um ciclo de cinema normalíssimo. Na altura, a Cinema Novo já existia há quatro anos. Tinha aparecido, em 1976, como uma revista de cinema bimestral, que se manteve, a partir daí, por mais doze anos – a revista de cinema que mais tempo durou em Portugal. Mais tarde, transformou-se na revista Estreia, que teve três anos no mercado. Depois passou para a Internet, até que a vendemos à aeiou, que ainda a mantém online.

 

O Auditório Municipal Carlos Alberto já era pertença da Secretaria de Estado da Cultura de então e, nós, com regularidade, começámos a fazer lá ciclos de cinema dos mais variados tipos, dedicados a realizadores como o Scorsese, o Visconti ou Marco Ferreri. A determinada altura, decidimos fazer um ciclo dedicado ao cinema fantástico, numa lógica que, desde a sua origem, nunca foi propriamente a do cinema de terror, mas a de um ciclo com uma definição muito mais lata daquilo que é o cinema fantástico, isto é, tudo aquilo que não é real será imaginário e tudo aquilo que é imaginário será fantástico. O Fantas emerge de um grupo cinéfilo que já vinha de estruturas anteriores, como o Cineclube do Porto e o Cineclube do Norte. O nosso gozo para trabalhar o cinema era não só escrever, mas também levar a nossa escrita, em termos visuais, para o público.

 

Naquela altura, tivemos sorte que foi, ao mesmo tempo, também um azar: o Correio da Manhã publicou na primeira página, com letras gigantes «Sangue invade as ruas do Porto». A partir desse momento o festival ficou com uma marca de cinema gore e de cinema de terror, que nunca mais conseguimos, por todas as voltas possíveis e imaginárias, afastar. É evidente que se quisermos olhar para o festival há vintes anos, esse já é um Fantasporto que tem uma semana dos realizadores completamente generalista, há quinze anos é também um festival que já tem uma área vocacionada para o cinema oriental – que, aliás, nos sentimos responsáveis por introduzir na Europa. Contudo, creio que o êxito passou muito pelo critério de selecção dos filmes que tem permitido que tenhamos salas com muita gente, com público alargado e que não sofreu demasiadamente com a mudança do carismático Carlos Alberto para o burguês Rivoli.

 

Como é feita a selecção dos filmes?

É um trabalho muito especializado e que começa no momento em que é anunciado que vai ser produzido o filme A, B ou C. Quando sabemos que vão ser produzidos, o que nos interessa logo é saber quem é o produtor, porque o produtor é, à partida, um garante da qualidade ou não. Numa segunda fase, olhamos para realizador e para a equipa artística e aí já nos sentimos à-vontade para fazer a selecção.

 

Quais são os limites do cinema fantástico?

Os limites, se é que se podem criar limites para o cinema fantástico, estarão, por exemplo, num filme como o Providence, do Alain Resnais, que conta a história de um escritor que está acamado e que, aos poucos e poucos, vai mostrando aquilo que a mente da personagem está a criar e que concomitantemente está a escrever. Por um lado, isso é um dos limites daquilo que é fantástico. O limite dos limites seria uma coisa como o Funny Games, do Michael Hanika, que considero o filme mais horrível e que mais medo me meteu até hoje. Apesar de ser realista, é também um filme de horror total. Quero dizer com isto que, no fundo, o fantástico abarca uma panóplia de filmes que não têm propriamente a ver com o real, muito embora hajam, dentro do cinema realista, filmes que são claramente de horror, os denominados thrillers, que, desde que entrem no campo de criar emoções fortes, já podem ser considerados filmes de terror.

 

Voltando um pouco atrás, uma possível mudança de câmara não afectará os apoios. E o Rivoli? Continuará a ser a casa do Fantasporto nos próximos anos?

Se durante três anos vivemos uma situação complicada, em que o Rivoli ficou numa situação de vai e vem e em que acabou a Culturporto e surgiu a Porto Lazer, tivemos sempre a garantia de que o Fantasporto se realizaria no Rivoli, creio que no próximo ano não haverá diferenças rigorosamente nenhumas. Se for eleito o Rui Rio a situação manter-se-á na mesma; se houver mudanças, penso que, até com mais facilidade, vão haver modificações. É sempre chato correr o Lá Feria daqui porque ele protesta sempre, mas o Rivoli mudará o esquema de programação e logicamente não ficará exclusivamente nas mãos de um produtor de espectáculos.

 

Um dos próximos passos será a criação da Fundação Fantasporto. Quais são os principais objectivos e vantagens desse projecto?

Enquanto, neste momento, temos apoio do Estado e o apoio dos privados, ao nível de empresas, com a fundação poderemos ter outro tipo de apoios dos privados, isto é, das pessoas. E há pessoas que têm muito dinheiro e que podem ajudar.

 

É essa a ideia dos «amigos do Fantas»?

Há os mecenas, que são as empresas, e os patronos, que são os individuais, e depois há os amigos, que são aquelas pessoas que vêm ao Fantas há muito anos. É mais uma questão de simpatia para ter as pessoas perto de nós, como sócias. É curioso ver que já vamos em cerca de duzentos participantes e, neste festival, algumas pessoas já assumiram essa categoria de sócios do Fantasporto.

 

Passando para a recente edição. Tivemos no Pré-Fantas um ciclo dedicado à arquitectura. Qual é o balanço dessa iniciativa?

Foi fantástico. O ciclo de arquitectura foi uma ideia que substituiu o que fazíamos no Pré-Fantas, que era um conjunto de antestreias. Decidimos apresentar um programa com cabeça, tronco e membros, um programa envolvendo a Ordem dos Arquitectos, sendo co-organizado com o arquitecto Jorge Patrício, que é uma pessoa em quem temos toda a confiança. A escolha dos filmes foi nossa e eles fizeram os textos e os conceitos. Eles desenvolveram um projecto contra a «escola» do Porto, isto é, a escolha dos arquitectos convidados para as conferências, como é o caso do japonês Sou Fujimoto, ou de Marcos Cruz, que tem conceitos completamente diferentes da Escola de Arquitectura do Porto. Quando estávamos a preparar o programa pensamos fazer as conferências no pequeno auditório, para duzentos e muitas pessoas, mas acabamos por optar pelo grande e tivemos cerca de 600 a 700 pessoas em cada uma das conferências, o que é notável.

 

Cinema português «trabalha para o umbigo»

 

O cinema português também tem merecido destaque nesta e noutras edições do Fantasporto. Como vê o actual panorama do cinema português?

Em termos profissionais está péssimo. Não há indústria e as pessoas trabalham para o umbigo, não trabalham para o público e fazem filmes que apenas interessam a um nível diferenciado, para ir festivais internacionais e que são invisíveis em Portugal, ninguém os exibe. Em relação aos jovens, damos um apoio muito grande e temos até uma área dedicada exclusivamente para as escolas de cinema. Ainda ontem discutia com alguns elementos do filme espanhol Sexykiller sobre o que era ou não indústria, e disse-lhes que Portugal não tem indústria nenhuma. E não tem por uma razão muito simples. Em Espanha têm que entrar com 75 por cento da verba e têm que rentabilizar o filme para conseguir recuperar o dinheiro. Em Portugal, o filme é integralmente pago pelo Estado e não temos que recuperar dinheiro nenhum. O produtor, que é quem tem a capacidade financeira para gerir o filme, não existe em Portugal. O dinheiro entra directamente para o realizador, mesmo que exista a ideia vaga do nome de uma produtora por trás.

 

Passamos do cinema português para o europeu e o asiático, que também têm merecido destaque no Fantas. Numa altura em que os Óscares foram tudo menos americanos, sente que está a ganhar essa aposta?

Estamos a assistir a uma mudança radical no cinema mundial, sobretudo no europeu, mas também no asiático, que há já mais de dez anos que conseguiu entrar no circuito internacional. Há dezenas e dezenas de filmes que são feitos em Espanha, todos os anos, que têm uma versão espanhola e uma versão em inglês, feitas em paralelo. Isso permite aos filmes espanhóis entrarem na América Latina e em todos os países de língua inglesa. Por exemplo, uma das grandes empresas de distribuição americanas, a Lions Gate, comprou os direitos do Sexykiller, o que significa uma distribuição gigantesca de cerca de mil cópias. A versão será a inglesa, com os mesmos actores e actrizes da versão espanhola. Portugal nunca terá isso.

 

Voltando aos Óscares, Danny Boyle, que esteve no Fantas em 1995, com Shallow Grave, e em 2003, com 28 Days Later, venceu oito estatuetas com Slumdog Millionare. Olhando para este exemplo, considera o Fantasporto um festival talismã?

Isso já tinha acontecido, no ano passado, com os irmãos Coen, há dois anos com Guillermo Del Toro e, ainda antes, com o Minghella. A selecção é uma questão de olho, é uma questão de se perceber mais ou menos a feitura dos filmes e, nesse aspecto, a ida a festivais internacionais e, sobretudo, aos mercados internacionais é muito importante. À partida, quando vemos um filme já sabemos em que dia do Fantas o vamos exibir.

 

Onde pára a crítica?

 

Na mensagem do programa oficial pode ler-se que a crítica do cinema acabou. Revê-se nessa afirmação?

É verdade. Revejo-me nessa afirmação por uma razão muito simples. Basta pegar em todos os diários nacionais que trazem notícias do Fantasporto e nenhum deles fala dos filmes que passam no festival, só falam do ambiente e das pessoas que estão cá. Onde é que está a crítica? Onde é que está o falar sobre os filmes? Não está. Tirando dois ou três críticos, os outros não gostam de cinema. Dizem sempre mal de tudo e mais alguma coisa. A crítica de cinema a sério terminou, em Portugal, no final dos anos 90. Nessa altura havia um conjunto de pessoas que ainda olhavam para o filme e o enquadravam no país onde era produzido e depois envolviam a sua crítica em torno desses conceitos. Isso não só acontece no cinema, mas também nas artes plásticas, na literatura e em praticamente todas as artes. Ainda há o crítico que diz gosto e não gosto, mas ponto final, acabou. Em termos genéricos, dizer que há um conceito de crítica que permita às pessoas ter uma leitura diferente em relação àquilo que é o produto cultural é uma situação que já não existe. E falo à-vontade porque durante vinte anos fui jornalista da área cultural dos três jornais do Porto.

 

Imaginando que tinha todos os apoios necessários. A 30ª edição do Fantas vai ter uma programação especial?

Sabemos o que queremos fazer. Agora não vamos anunciar nada porque não tem lógica estar a anunciar aquilo que vamos fazer e, ao mesmo tempo, dizer que pode não haver festival. Por isso, enquanto não tivermos a certeza, não vamos anunciar rigorosamente nada.

 

Ao fim de quase trinta anos ainda lhe dá gozo organizar o Fantasporto?

Dá muito gozo. A única coisa que acontece é que, cada vez mais, para além dos problemas para obter apoios do Estado, é necessária uma burocracia gigantesca, coisa que não existia no passado. E, ao nível dos privados, estamos a fazer contratos que metem advogados e tudo isto, que era feito com uma certa frescura, transformou-se num monstro burocrático gigante que ocupa as pessoas durante todo o ano. Dizem que sou a cara do festival, mas há mais – a Beatriz Pacheco Pereira e o António Reis. Infelizmente as coisas recaem muito sobre mim, as pessoas querem falar comigo e, nesse aspecto, é complicado porque tenho outras vidas, mas isso já é outra história.

 

«Indie é um festival cópia do Fantasporto»

 

Há pouco falávamos do centralismo. Considera que a ascensão dos festivais de cinema da capital, como o Doc ou o Indie, que em pouco tempo começaram a receber do ICAM subsídios na mesma ordem do Fantasporto, poderá afectar o Fantas?

Não, isso é óbvio. O Doc é um grande festival, que vem na sequência dos encontros de cinema documental que também já se realizavam em Lisboa. No caso do Indie, custa-me ouvir «tanto me faz ter a sala cheia ou vazia porque o que eu quero é mostrar o filme não sei quê». Isso é complicado porque estão envolvidos dinheiros do Estado e temos que pensar também no público, porque os festivais são feitos para o público. Parece-me que, numa fase inicial, queriam fazer uma coisa na lógica do que o Fantasporto vinha desenvolvendo. Logo, o Indie é um festival cópia do Fantasporto. Achei um bocado ridículo o que aconteceu há dois anos, uma guerrinha de bocas com eles a dizerem: «Nós temos mais espectadores do que o Fantas». Nunca tiveram! Aliás, eles tiveram sempre metade dos espectadores do Fantas. Basta dizer que Lisboa tem três milhões e meio de potenciais espectadores para um festival de cinema, enquanto o Porto tem um milhão, considerando o Grande Porto, e 200 mil pessoas, considerando aquilo que é o Porto neste momento. Só essa diferença diz tudo.

 

O que me parece é que há eventos a mais em Lisboa. Surgiu com uma dinâmica extremamente interessante, em Lisboa, um pequeno evento chamado MoteLx. Tem sido realizado tendo por base aquilo que é a programação do Fantasporto. Eles pedem-nos contactos e nós damos, não há problema rigorosamente nenhum. O Indie até tem potencial, está a ser bem organizado e logicamente uma coisa bem organizada em Lisboa até pode ter potencial. Dizendo as coisas preto no branco, creio que o Indie só funciona porque tem o jornal Público comprado. Há um assumir claro disso que, aliás, já existia nos tempos em que o Paulo Branco tinha uma dinâmica grande de distribuição cinematográfica: na mesma semana que estreava uma bomba monumental no circuito comercial, era dado um destaque grande de cinco, seis páginas, particularmente no Ípsilon, a um filme extremamente pequenino do Paulo Branco. É, de alguma forma, a ligação de um elemento da equipa do Indie pertencer à Atalanta que fez o link directo com o jornal.

 

 

Palavra de honra, não me preocupa que haja um super festival de cinema em Lisboa. Não me preocupa nada que o Paulo Branco consiga trazer cá 25 estrelas do firmamento europeu para fazer um evento social ou cultural no Casino Estoril e trazer os americanos cá. É uma coisa que me deixa um pouco baralhado, mas não me preocupa rigorosamente nada. Nós [Fantasporto] temos que continuar esta linha que me parece correcta. Em termos futebolísticos, diria que em que equipa que ganha não se mexe e, no caso do Fantasporto, não vale a pena mexer em nada.

 

É importante a existência de vários festivais porque os cineclubes acabaram e são as únicas oportunidades que as pessoas têm de ver filmes diferentes, que não passam no circuito comercial. Eles [Indie] não se preocupam com o cinema independente, mas com filmes comerciais. Nós já exibimos cinema independente desde o início do festival. Basta ver que, a nossa base de programação passa pelo cinema que, à partida, tem dificuldade em entrar no circuito comercial.

Carlos Daniel Rego
 
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