«Uma identidade muito própria, para irem digerindo»
Cantam em português e admitem que trabalham de «forma quase anárquica». Nascituro, o álbum de estreia de O Ludo chega hoje às lojas. O RASCUNHO falou com os algarvios e chama à primeira página o vídeo do single, Ao virar da página.
São olhanenses, amam o «seu»
Algarve e em palco chegam a fazer-se acompanhar de kazoos e ferrinhos. Juntaram-se
em 2005 mas ainda não tinham lançado nenhum disco. Numa tarde solarenga e
repleta de entrevistas João Baptista, Paulo Ferreirim e Filipe Cabeçadas, meio
plantel dos experimentalistas O Ludo, contaram ao RASCUNHO como tencionam passear pelo país a sua portugalidade.
Quando se fala na vossa banda há uma questão que se coloca.
Porquê o baptismo de O Ludo?
João – O Ludo é uma reserva natural integrada noutra reserva natural que é o
Parque Natural da Ria Formosa, na nossa zona, o Algarve. A escolha do nome
é sempre complicada. Nós estávamos indecisos e após terem sido colocados alguns
nomes em cima da mesa, O Ludo parece que soou. Na altura não pensámos muito
nisso, mas agora até nos dá certo gozo termos um nome regional.
No entanto, a vossa música não fala muito do Algarve. Se
alguém dissesse que são doutra zona do país ninguém estranharia…
João – Nas letras nós tentamos
falar de coisas que não conhecemos.
Paulo – A portugalidade, expressa
nos nossos temas através das experiências que fazemos e dos instrumentos que
utilizamos como os ferrinhos ou os kazoos, é que acaba por nos remeter para o
Algarve.
Outro elemento indispensável para essa portugalidade é a
música cantada em português. O
Ludo existe há quatro anos mas só vão lançar agora o primeiro álbum, curiosamente
numa altura em que têm aparecido muitas bandas a cantar na língua de Camões como
os Deolinda, os doismileoito ou Os Pontos Negros. Isto é propositado ou mera
coincidência?
Filipe – Não foi programado a data
de lançamento do álbum coincidir com um período no qual esses nomes andam a ser muito falados.
João – É muito positivo o airplay que rádios como a Antena 3 e a
Rádio Comercial têm dado não só às bandas que referiste, como também aos dR.estranhoamor,
aos Peixe:Avião ou aos Orangotang, também elas excelentes trabalhos que
gostamos de ouvir. Esta situação pode ser favorável para nós, mas foi mera coincidência. A aceitação à nossa
música tem sido muito boa, melhor do que estávamos à espera. No final do ano
fizemos um contrato com a nossa agência [Magicbox], que achou que Abril seria uma boa
altura para lançarmos o álbum, até porque estamos perto das festas
universitárias. O Nascituro podia ter saído no princípio do ano, mas nessa
altura preferimos empenharmo-nos no videoclip do nosso singleAo virar da página.
A minha culpa, outro dos seis temas que integram Nascituro, conta com
os versos «por minha culpa, minha tão grande culpa» no refrão. Não têm receio
que as parecenças dessa expressão com uma oração religiosa, associe o nome dos
O Ludo à Igreja?
João – As palavras têm um peso,
sejam religiosas ou de qualquer outro tipo. Fui eu que escrevi essa letra, que
ouvi, se não me engano, no casamento de um amigo. Naquela altura não quis
utilizar dessa forma. Quis dar a volta de outra maneira. Mas depois pensámos:
«E porque não?» Não nos faz confusão, mas sim faz-nos lembrar do peso que
essas palavras têm: «por minha culpa, por minha tão grande culpa». São versos
que ficam na cabeça, o que é bom.
O lançamento de Nascituro está previsto para o Lounge, em Lisboa. A escolha foi vossa?
Filipe – Tínhamos a ideia de
fazer o lançamento aqui em Lisboa porque, apesar de adorarmos Olhão, a nossa
cidade, e o nosso Algarve, achámos que seria importante lançarmos aqui. O Lounge
foi o primeiro a convidar-nos e como é um espaço de que gostamos, o convite foi
naturalmente aceite. Vamos tentar
percorrer os pontos mais importantes do país. Curiosamente o convite foi
feito via Myspace.
Consideram que plataformas como o MySpace têm contribuído
para este avanço na música cantada em português?
João – As pessoas agora estão mais à
procura da música cantada em português e vão mais a concertos. Hoje em dia existem
diversas plataformas que ajudam na divulgação, não só o Myspace como também os
blogues, o Twitter e até o próprio Hi5, o que é bom para as bandas e
consequentemente para a música portuguesa.
Filipe – Provavelmente será bom
para nós, vamos ver. Mas gostava de reforçar que acabou por ser uma
coincidência lançarmos agora.
Há pouco falaram no nome dos Peixe:Avião, banda da qual me
lembrei quando ouvi pela primeira vez os vossos temas. Como é que encaram essa
comparação?
João – Sermos comparados com uma
banda como os Peixe:Avião é excelente, mas não foram uma influência directa no
nosso trabalho. Admito que temos uma sonoridade parecida com a deles, assim
como há quem nos compare aos Ornatos Violeta.
Filipe – Quando as pessoas nos
começarem a ouvir atentamente vão começar a encontrar certos traços no nosso
reportório e chegar à opinião que O
Ludo tem uma identidade muito própria,mas isso fica para as pessoas irem
digerindo. Como ainda não saíram muitos temas para as pessoas ouvirem são
naturais as comparações com um género ou uma banda.
Vocês ouvem todos o mesmo tipo de música ou há muitas
diferenças?
Paulo – Quando gravámos o
Nascituro andávamos a ouvir essencialmente Los Hermanos, por ser uma banda que
canta em português, com ritmos algo exóticos e típicos do Brasil, que nos
ajudou no caminho até alcançarmos a tal portugalidade no nosso som. Outrabanda que todos andávamos
a ouvir eram os Interpol, mais concretamente o Antics,por causa do nível de produção e como eram utilizadas as
guitarras e os próprios arranjos. Não nos influenciaram directamente porque são
bandas de universos completamente distintos, mas acompanharam o processo de
evolução destas músicas. Para além disso, há imensas outras bandas que ouvimos
de electrónica, trip-hop, tudo e mais
alguma coisa.Há muitas diferenças entre o que nós ouvimos
e esse é o segredo [riem-se]. Basta
referir, por exemplo, que o Filipe tocou numa banda de metal e eu toquei numa banda de garage rock dos anos 50 e 60. Existem várias influências distintas mas que nos
acompanham ao longo da vida.
Então, vocês juntam-se todos e cada um
leva as suas ideias? Não há uma cabeça só que pensa a banda e o vosso som é o
resultado dessa interacção.
Paulo – Sim, é mesmo isso. No álbum não temos o nome de
quem fez a composição, a letra, não temos autorias de nada. Acaba por ser
propositado por trabalharmos dessa forma quase anárquica. As ideias são
válidas, experimentamos, ouvimos, repetimos, até chegarmos a um produto final
que nos agrade.