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 01.07.2009 | Teatro | Dança

A artista que contaminou o mundo

 

O movimento que Pina Bausch (1940-2009) deu à dança teve repercussões em toda a arte contemporânea – da performance ao cinema, do teatro à fotografia. É o que nos demonstra a tese de mestrado de Paula Petreca, da qual publicamos um excerto.

 

A história de Pina Bausch como figura no panorama da arte mundial é quase tão longa quanto sua carreira à frente do Teatro de Dança de Wuppertal. Suas criações distinguiam-se muito de tudo que se fazia em dança naquele início de década de 1970. Suas criações foram chamando a atenção na Alemanha, e progressivamente na Europa, Ásia e Américas, conferindo-lhe popularidade mundial em menos de uma década. O tempo decorrido entre a estreia de sua primeira peça com a companhia e uma tournée internacional foi de menos de quatro anos (1). A agilidade na difusão das informações a respeito da coreógrafa pela imprensa que, atenta à sua actividade, dinamizava o trânsito local-mundial transmitindo dados sobre Pina Bausch ao redor do mundo.

 

Hoje, é bastante improvável não se reconhecer a importância de Pina na evolução (2) da dança contemporânea. Enumeram-se características técnicas, dramatúrgicas, estéticas e temáticas naquilo que trouxe. Mas o quê, de tudo isso, foi de fato, transformador?

Ao invés de responder a essa pergunta, quero repropô-la. E, para tal, antes de mais nada, é necessário compreender que as mudanças não se processaram a partir de um accionamento de dispositivos em prol da optimização de um resultado. Os recursos criativos adoptados por Pina não surgiram como soluções, mas como hipóteses – e isso não constitui um detalhe, mas, sim, um procedimento cuja utilização traz uma profunda inovação, uma vez que organiza uma outra estrutura criativa. O próprio entendimento de criação em dança muda, uma vez que as biografias passam a actuar com uma prevalência que não existia, até então.

 

A informação que trazia Pina em seus espectáculos era absolutamente transformadora, pois revelava outras possibilidades de concepção e apresentação de materiais até então não empregados daquela maneira dentro do que se nomeava de espectáculo de dança. Por ser organizado de outro jeito, aquele material comunicava-se de outra forma, mesclando códigos de representação cénica e social na criação de realidades no palco.

 

Ter informações que dizem respeito ao indivíduo na obra, e a retratação do humano na cena foram as características que nos marcaram com mais intensidade no primeiro momento. Todavia, depois de adaptados ao modo de ser da companhia de Wuppertall, o processo criativo de Pina Bausch afectou o mundo da arte de tal forma que, tornou-se impossível descolar do gesto a elucidação de imagens, memórias e experiências.

 

Esta atitude de re-significar os materiais internos em novos ambientes promovendo acordos, trocas e adaptações que permitem à experiência vivida entregar-se a um projecto evolutivo da memória mostra-se bastante frutífera no trabalho que Pina desenvolveu e disseminou, contaminado artistas do mundo todo.

 

A conjugação de actos-lembranças particulares fazer coreográfico como capacidade reflexiva da arte de tocar questões extremamente colectivas, tornava o seu fazer numa forma de criar atrela da sensibilidade e da política de modo bastante coerente em seu modo de fazer dança.

Talvez seja essa a ontologia de Pina Bausch: uma radicalização da utilização da autobiografia na dança, através da restauração reflexiva da experiência sensório-motora promovendo deslocamentos contextuais capazes de revelar a natureza imanente do gesto que dança a memória, investindo-a de movimento e transformação.

 

(1) Segundo o website oficial da coreógrafa, em Maio de 1977 a companhia sob sua direcção apresentou-se pela primeira vez internacionalmente na cidade de Nancy, na França, levando ao palco a peça Os Sete Pecados Capitais. Ainda naquele mesmo ano, a companhia se apresentou em Viena, na então Jugoslávia e na Bélgica. Antes de 1980 ocorreram ainda apresentações na Holanda, no Reino Unido, na Índia, Sudeste Asiático e Nova Zelândia.

(2)
A ideia de evolução aplicada aqui não se refere ao uso corriqueiro do termo cuja aplicação tem sinonímia com as ideias de progresso, melhoria, avanço. Evolução no contexto aqui tratado refere-se à acepção darwiniana do conceito que diz respeito à apuração, à perseverança no tempo decorrente da seleção natural, que é um complexo processo adaptativo em cujos ajustes advêm de acordos que priorizam a perseverança da existência mais propensa ao sucesso dentre as variáveis suscetíveis a falibilidade.

 

 

 

Paula Petreca é investigadora do Centro de Estudos de Dança da Universidade Católica de São Paulo, Brasil. Mestre em Comunicação e Semiótica, a sua tese debruça-se sobre na influência em toda a arte contemporânea implementada por Pina Bausch na dança. Tem formação em Dança Contemporânea pela Escola Livre de Santo André e pelo Centro em Movimento de Lisboa, onde está actualmente a realizar um estágio de investigação artística, aliando a pesquisa corporal ao trabalho documental.

 

Bailarina e videasta, Paula Petreca coreografou e dançou, entre 2007 e 2008, seis peças de videodança em parceria com o músico português Luís Costa. A colaboração resultou no disco Short Fleeting Moods e na exposição 7 paralelos, do Salão de Arte Contemporânea de Santo André, na Lástima de Lisboa e na Duotone de Tokyo. É colaboradora do RASCUNHO desde Janeiro de 2009.

Paula Petreca
 
etiquetaEtiquetas: Pina Bausch, Paula Petreca,  
 
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