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Desconcertante alegoria, falsamente ingénua, Delicatessen filma, com um travo irónico, o terror da tirania com sábio olhar
Do mesmo artista
apontador Un Long Dimanche de Fiançailles/ Um Longo Domingo de Noivado, 2004
apontador Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain/ O Fabuloso Destino de Amélie, 2001

 
   
 Cinema  |

Delicatessen

 Jean-Pierre Jeunet, 1991

 

 

«Cá ou lá, não estamos em lado nenhum», as palavras enigmaticamente premonitórias do carniceiro. O carniceiro é senhorio, é tirano de bairro, verdugo contingente. Após uma catástrofe que não conhecemos, eis a situação filmada em Delicatessen, por Jean-Pierre Jeunet (Amélie) e Marc Caro. É numa névoa de cor indefinida que se desenham as personagens e o edifício – espécie de masmorra domiciliar – que as une. Cenário de pós-devastação, são os géneros a moeda de troca, e entre eles assume relevo especial a carne, letra de câmbio de valor nutritivo e financeiro acrescido. À cabeça do esquema, o dono do talho. A carne, pormenor macabro e estruturante, diria, da arquitectura do filme, advém de vítimas humanas dos planos malévolos do homem do talho, do homem dos cruéis alugueres. Estranha ambiência, repleta de uma galeria de estranhos seres, como o que vive rodeado de sapos e outros camaradas de lodo, entre os quais os moluscos que vai glutindo com volúpia. Ou Aurore, nas suas tentativas perpétuas e vãs de suicídio. Todos dependentes do açougueiro. O medo tem pela rédea curta os inquilinos e clientes do estabelecimento.

 

É este o cenário com que se depara o artista circense Louison (Dominique Pinon), ao responder a um anúncio que oferece trabalho (de escravo) e guarida (delapidada). Como é da cartilha, toma-se de amores pela flor que nasceu da lama, Julie, a filha de Clapet, o tirânico talhante. Objecto estranho, entre rupestres personificações da bizarria, a jovem é fiapo de luz entre as trevas indefinidas do caldo em que bolçam aquelas vidas, tremendamente filmadas pela dupla de realizadores. Violoncelista, cega como um morcego, sem os óculos que tira para as artimanhas do romance, doce como melaço, tímida como corça. De uma fragilidade canhestra e figurada que a torna, à sua maneira, bela. O ideal para o anti-herói encarnado na personagem do forasteiro Louison.

 

Descontente com a aproximação da filha ao antigo histrião, o talhante tenta minar o que é risível enlace, embaraço filmado, terna aproximação entre dois desajustados. Assim, tanto o improvável casal quanto os foras-da-lei – apodados de «trogloditas», espécie de émulos da Resistência, rebeldes literalmente subterrâneos que lutam pelo derrube de Clapet – encetam um movimento de subversão. «Aqui não há nomes…», dizem os trogloditas, do escuro em que habitam, tecendo a sua rebelião lodosa. O carrasco acaba por perecer às suas próprias mãos, castigado pela sua obtusidade, ferido mortalmente com a arma subtraída a Louison, por silenciosa conspiração da concubina do carniceiro. A moral subvertidamente infantil do filme acaba por castigar o vilão, premiando os desajustados e os pobres de fundos de maneio, os de espírito. Fá-lo, porém, com uma armadura estética e cinematográfica que defende o filme da banalidade e do infantilismo. É, talvez, elucidativo disso mesmo o conjunto de sequências com que encerra a película: casa destruída, cores finalmente definidas, dois miúdos que sobreviveram ao desastre do passado.

 
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Dica:31-07-2010
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