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Literatura de viagens e o espectro de outro Portugal.
Do mesmo artista
apontador O Vendedor de Passados, 2004
apontador A Feira dos Assombrados, 1992

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 Literatura  |

Um Estranho em Goa

 José Eduardo Agualusa, 2000

 

 

Um Estranho em Goa foi a primeira viagem deste leitor ao universo Agualusa (que me perdoem os mais aficionados).


Ao fundo, entrelaçado no nevoeiro da História, está o retrato do império colonial português, interligado por uma personagem cujo percurso vai de Portugal a Angola e de Angola a Goa. É aí, nas Índias outrora lusitanas, que se centra esta novela biográfica de José Eduardo Agualusa.

 

Em plena década de 90, naquele naco de terra plantado na costa ocidental indiana e desportugalizado em 1961 pelas forças da então União Indiana, o narrador-jornalista, decidido a arrancar uma boa estória, vê-se envolvido numa estranha teia de relações às quais não são alheias pequenas doses de misticismo e macabra perigosidade.


O bom contador encontra nas aventuras de um picaresco revolucionário-por-ofício a trama central para as suas páginas, anexando-lhe um São Francisco Xavier reavivado pelo tráfico de relíquias e uma panóplia de outras ramificações secundárias e bem narradas.

 

Pelo meio há os detalhes, os pequenos e contemporâneos resquícios de um Portugal colonizador – que assentou arraiais na Índia em 1510, pela mão de Afonso de Albuquerque. Também um desenho da manta de retalhos religiosa que hoje compõe as gentes daquela terra: cristãos, hindus e islamitas – que dominaram a região durante o século XIV, destruindo boa parte dos templos da crença politeísta.

 

Conhecemos, à medida que avançamos, pequenos detalhes do narrador através de ideias montadas em frases lúcidas: que é pontual e que essa é a pior das virtudes, por dela não haver testemunhas; que afinal escritor não é sinónimo de cigarro; e que «certas palavras são como as especiarias. Devem ser utilizadas com extrema parcimónia». Um estranho em Goa é também um manancial de certeiras referências literárias e musicais, como Wilde, Hamingway ou Calcanhoto.

 

Agualusa, o homem que estudou Agronomia em Lisboa e que depois se foi apaixonando pelo jornalismo e pelo Brasil, apresenta na primeira pessoa o relato da sua experiência oriental. Em Goa, território do qual Portugal apenas abdicou formalmente em 1974, o escritor viveu. E isso é o suficiente para poder contar.

 

Pai de títulos como A Feira dos Assombrados e O Vendedor de Passados, este angolano mostrou-me a mais sábia frase das que li nos últimos tempos: disse-me que «viajar é perder pessoas». Viajar é perder pessoas.

 
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Dica:08-09-2010
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