Literatura
|
Um Estranho em Goa
José Eduardo Agualusa, 2000
Um Estranho
em Goa foi a primeira viagem deste leitor ao universo Agualusa (que me perdoem
os mais aficionados).
Ao fundo,
entrelaçado no nevoeiro da História, está o retrato do império colonial português,
interligado por uma personagem cujo percurso vai de Portugal a Angola e de
Angola a Goa. É aí, nas Índias outrora lusitanas, que se centra esta novela
biográfica de José Eduardo Agualusa.
Em plena
década de 90, naquele naco de terra plantado na costa ocidental indiana e
desportugalizado em 1961 pelas forças da então União Indiana, o narrador-jornalista,
decidido a arrancar uma boa estória, vê-se envolvido numa estranha teia de
relações às quais não são alheias pequenas doses de misticismo e macabra
perigosidade.
O bom contador encontra nas aventuras de um picaresco
revolucionário-por-ofício a trama central para as suas páginas, anexando-lhe um São Francisco Xavier reavivado pelo tráfico de relíquias e uma panóplia
de outras ramificações secundárias e bem narradas.
Pelo meio
há os detalhes, os pequenos e contemporâneos resquícios de um Portugal
colonizador – que assentou arraiais na Índia em 1510, pela mão de Afonso de
Albuquerque. Também um desenho da manta de retalhos religiosa que hoje compõe as gentes
daquela terra: cristãos, hindus e islamitas – que dominaram a região durante o
século XIV, destruindo boa parte dos templos da crença politeísta.
Conhecemos,
à medida que avançamos, pequenos detalhes do narrador através de ideias
montadas em frases lúcidas: que é pontual e que essa é a pior das virtudes, por
dela não haver testemunhas; que afinal escritor não é sinónimo de cigarro; e
que «certas palavras são como as especiarias. Devem ser utilizadas com extrema
parcimónia». Um estranho em Goa é também um manancial de certeiras referências
literárias e musicais, como Wilde, Hamingway ou Calcanhoto.
Agualusa, o
homem que estudou Agronomia em Lisboa e que depois se foi apaixonando pelo
jornalismo e pelo Brasil, apresenta na primeira pessoa o relato da sua
experiência oriental. Em Goa, território do qual Portugal apenas abdicou
formalmente em 1974, o escritor viveu. E isso é o suficiente para poder contar.
Pai de títulos como A Feira dos Assombrados e O Vendedor de Passados, este angolano mostrou-me a mais
sábia frase das que li nos últimos tempos: disse-me que «viajar é perder
pessoas». Viajar é perder pessoas.
|