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Alexandre Gamela

Media DJ

 
19,10.2009 | Alexandre Gamela

Se está no jornal, é porque é verdade

 

«A falta de aplicação dos procedimentos básicos por parte de alguns jornalistas tem levado ao aumento da desconfiança do público em relação aos meios de comunicação»

 

Esta semana a imprensa tablóide britânica foi abalada com um rude golpe na sua credib… hum… metodologia de recolha de notícias sobre celebridades. Chris Atkins está a terminar o seu mais recente documentário intitulado Starsuckers, uma crítica ao relacionamento dos media com os famosos do entretenimento, e revelou esta semana que a sua equipa conseguiu que alguns tablóides publicassem histórias fabricadas pela sua equipa, sobre algumas das suas estrelas favoritas. A ideia era ver quem publicaria as informações falsas.

 

Vou só dizer que os seus esforços foram recompensados, com todas as histórias a serem publicadas menos uma e, em alguns casos, a serem enriquecidas com outros pormenores que não foram fornecidos pela equipa de Atkins. A brincadeira veio questionar a forma como os jornais não verificam a informação que lhes é fornecida, mas o problema não se levanta apenas em relação aos tablóides. Apesar de recorrerem a práticas no mínimo questionáveis, como pagamentos a fontes, e utilização de informação de forma no mínimo eticamente questionável, os media de referência também não estão isentos de incorrer na asneira de não verificar a informação. A verdade é que algumas dessas notícias inventadas foram republicadas por outros meios informativos que as tomaram como verdadeiras. E quando nos apercebemos que muito do material informativo que enche páginas de jornal é notícia de agência, muitas vezes gerada por estagiários – em Portugal, na Lusa são muitos a ganhar 150 euros por mês, durante três meses, o que não implica falta de qualidade nas pessoas mas na gestão geral, já que em três meses não se aprende muito sobre a profissão, numa agência – que depois outras tantas vezes é tratada por estagiários. A falta de experiência pode levar a erros de palmatória na confirmação dos factos, se não forem supervisionados em conformidade. E acreditem que por vezes essa supervisão não existe.

 

A facilidade de disseminação de informação através de redes sociais veio trazer problemas acrescidos aos jornalistas, que muitas vezes têm na prática um produto acabado e pronto a publicar, de tal qualidade que se torna complicado não acreditar nele. Os embustes no Twitter sobre as hospitalizações de Steve Jobs chegaram mesmo a ser levados a sério pelos órgãos de comunicação, mas não foram caso único, e terá sido por isso que os media tradicionais foram resistentes à divulgação da morte de Michael Jackson. Mas é cada vez mais complicado fechar os olhos a toda a informação que flutua na internet. É tão complicado, que o site humorístico The Onion tem tido algumas das suas «notícias» publicadas como verdadeiras noutros media internacionais. A falta de aplicação dos procedimentos básicos por parte de alguns jornalistas tem levado ao aumento da desconfiança do público em relação aos meios de comunicação. Para mais quando, agora, qualquer utilizador pode verificar por sua conta, até certo ponto, se a informação é verdadeira.

 

A pressão da notícia de última hora, o desinteresse no investimento em jornalismo de investigação em algumas redacções, a transformação de alguns media em câmaras de eco de conteúdos de agência, com uma quantidade irrisória de conteúdos originais, tudo isto tem levado à destruição da credibilidade do jornalismo. Os consumidores querem mais, e querem melhor. Mas as empresas querem investir menos, e o preço a pagar é elevado.

 

Quanto ao documentário de Atkins, tem a sua validade para um mundo que vive sobrecarregado de pseudo-notícias sobre pseudo-celebridades, que são famosas por serem famosas, numa sociedade obcecada por elas. Mas não duvidem que esta foi uma manobra fantástica de promoção do seu filme, que já anda nas bocas do mundo, ainda antes de estar acabado.

 

E vocês, acreditam em tudo o que lêem?

 

Alexandre Gamela

 
 
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